Funcionários ameaçam não abrir escola no início do ano letivo

Escola Classe 56 de Ceilândia foi alvo de três crimes nos últimos 15 dias

0
116
Foto reprodução

 

A menos de um quilômetro de distância das forças de segurança, uma escola de Ceilândia se tornou refém da criminalidade. Nos últimos 15 dias, foi alvo de três episódios criminosos que culminaram na restrição de liberdade de duas funcionárias rendidas. Com medo, os funcionários ameaçam não abrir as portas para o início do ano letivo no próximo dia 15. A unidade de ensino não tem vigilância que garanta a segurança diária para a comunidade.

A Escola Classe 56 de Ceilândia, na expansão do Setor O, tem 750 alunos de até 12 anos. Ela fica a menos de um quilômetro da 24ª Delegacia de Polícia Civil e do 10º Batalhão de Polícia Militar. Isso, porém, não impede os casos constantes de crimes. Segundo a direção da instituição, foram três em três semanas: vidros quebrados no refeitório, cilindros de gás avaliados em R$ 2,5 mil furtados e, agora, assalto com restrição de liberdade.

No meio da tarde de segunda-feira, um ex-aluno, de 14 anos, que jogava bola na quadra ao lado da escola pediu para beber água. Quando a diretora abriu o portão, três adolescentes armados e encapuzados entraram e anunciaram o crime. A ação durou cerca de 20 minutos e os jovens levaram pertences e os carros de duas funcionárias feitas reféns. As mulheres foram chamadas pelo nome durante a ação.

Horas depois, os dois carros foram encontrados e um menor, de 14 anos, apreendido no Sol Nascente. Segundo o sargento José Nilton da Silva, da Rotam, o garoto seria o ex-aluno que facilitou o acesso dos outros, que são procurados. As vítimas registraram boletim de ocorrência na 24ª DP.

Fixado no muro, um cartaz avisa que as atividades estão paralisadas “até que o governo tome medidas cabíveis para resguardar a segurança de todos”. “Estamos com medo, até para trabalhar. Não dá para garantir nossa segurança, dos alunos, pais ou toda a comunidade escolar”, diz a supervisora Cláudia Almeida, que trabalha há mais de uma década no local.

“Diante da realidade da falta de segurança (os servidores), não retornarão com suas atividades normais enquanto as autoridades não tomarem as devidas providências e ofertarem a garantia de vir trabalhar e poder retornar com segurança às suas casas”, diz outro cartaz que pede uma escola segura. A comunidade usou dinheiro arrecadado na festa junina para instalar alarmes, mas o recurso não foi suficiente para abranger todo o perímetro ou colocar câmeras de segurança.

Oficialmente, a Secretaria de Educação diz que a segurança do espaço será reforçada para o início das aulas, com apoio do Batalhão Escolar, mas afasta a possibilidade de atraso no início das aulas.

Vigilância feita com improvisação

O medo se intensifica com a ausência de vigilância especializada. Durante o dia, uma senhora com limitações físicas faz o controle de entrada e saída. À noite e nos fins de semana, quatro vigias noturnos tentam garantir a integridade da instituição e improvisam: as portas são fechadas por cadeiras, já que cadeados são constantemente violados. Ontem, um estava de atestado e o outro, em férias.

Marco Antônio de Souza, coordenador da Regional de Ensino de Ceilândia, admite que não há vigilância diurna durante a semana na escola, mas espera que a contratação seja concluída antes do início do ano letivo. “O processo de terceirização está aberto desde o início do mês, justamente por questão de segurança, para trazer essa tranquilidade à comunidade. No momento, estamos concluindo o aditamento do contrato anterior.

Reféns da criminalidade

“A gente fica à mercê da criminalidade. Não é a primeira vez que a escola é alvo e todo ano é a mesma coisa porque acontece com mais frequência durante as férias. A gente já fica preocupado quando termina o ano letivo. Sempre temos medo”, conta Cláudia Almeida, supervisora da escola.

No ano passado, nesse mesmo período, foram quatro casos. Televisores, computadores e instrumentos musicais estão entre os objetos levados por criminosos. As duas funcionárias feitas de reféns estão abaladas e abatidas. Segundo os amigos, não devem voltar para a escola.

“Não fico tranquila mandando ela para cá, mas tem que estudar e tentar mudar o mundo. O problema não é escola, professores ou direção, é falta de segurança. O poder maior não ajuda”, desabafa Kátia Gonzaga da Silva, 35 anos, autônoma, representante do grupo de pais e mestres e mãe de uma estudante de 11 anos.

O muro baixo, mato alto e árvores em volta da escola são alvos de reclamação porque, segundo a comunidade, colaborariam com as investidas de criminosos. “Vamos nos reunir para implorar solução porque pedir já pedimos demais”, afirmou Marli Moreira, 57, ex-professora e mãe de aluno. O coordenador da regional diz que tenta medidas para garantir a sensação de segurança, “mas segurança é um problema social de educação”.

Saiba mais

Uma faca supostamente usada pelos adolescentes durante o crime foi encontrada por uma criança de 6 anos na quadra esportiva da escola na manhã de ontem.

A EC 56 está entre os estabelecimentos de ensino de Ceilândia que esperam passar por reparos antes do início do ano letivo. Segundo o coordenador regional, a unidade integra a lista de prioridades.46