Tecnologia permite prender criminosos por meio de terra em sapato

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Em crimes violentos meticulosamente planejados, o assassino se prepara para não deixar rastros. Apaga eventuais impressões digitais, roupas com possíveis respingos de sangue são queimadas, e faz-se de tudo para destruir ou esconder a arma usada para matar. No entanto, a partir de agora, os criminosos do Distrito Federal precisam tomar cuidado onde pisam. Uma simples partícula retirada da sola do sapato poderá ser definitiva para confirmar a presença do suspeito na cena do delito.

Projeto desenvolvido pela Seção de Engenharia e Meio Ambiente (Selma) do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do DF transforma em vestígios forenses fragmentos de solo colhidos em roupas ou calçados. Cada centímetro quadrado do Distrito Federal foi mapeado pelos peritos, que determinaram as características específicas do terreno de cada uma das 31 regiões administrativas. O trabalho resultou em 300 amostras, retiradas de 10 profundidades diferentes.

Os peritos identificaram que as características são as mesmas em 55% do solo candango, com aquela terra vermelha tão comum ao Planalto Central. Foi preciso intensificar as pesquisas a fim de encontrar traços únicos em amostras aparentemente semelhantes.

Foi preciso extrair o que chamamos de DNA do solo, que é pautado pela cor e pela composição elemental. Dessa forma, podemos afirmar com precisão se determinado suspeito esteve em uma cena de crime, mesmo ele negando ter passado pelo local.

Rodrigo Corrêa, perito

De acordo com a Divisão de Comunicação social da Polícia Civil (Divicom), a evolução na área pericial poderá elevar ainda mais o índice de resolução de crimes violentos no DF. Segundo dados da corporação, 71% dos 30 casos de latrocínio (roubo seguido de morte) ocorridos entre janeiro e novembro de 2017 foram solucionados. Já quanto aos 409 homicídios registrados no período, houve solução de 46% das ocorrências.

“Crime da mandioca”
Para colocar o novo experimento em prática, os peritos começaram a aplicar o projeto em crimes de menor relevância, até chegar a casos mais complexos e de maior repercussão. Um dos primeiros a ser solucionado com a técnica foi um furto ocorrido em uma plantação de mandiocas em Planaltina.

Um homem foi acusado pelo agricultor de furtar as raízes e vender em uma feira livre. “O feirante negou, mas provamos a autoria, colhendo amostras do solo onde está a plantação e partículas de terra na casca da mandioca. O resultado deu positivo”, explicou o perito Rodrigo Corrêa.

Evidência que poderia mudar desfechos
Em crimes graves do passado, a análise de solo poderia ter sido fundamental para a elucidação de mortes brutais, como a da estudante Isabela Tainara, 14 anos, desaparecida em 14 de maio de 2007.

O corpo da adolescente – decapitado e com sinais de violência sexual – foi encontrado 45 dias depois, em estado avançado de decomposição, em um matagal de Samambaia próximo à casa da avó dela. A menina sumiu quando fazia a pé o trajeto do curso de inglês para a residência.

Em novembro daquele ano, a polícia recebeu uma denúncia e, em março de 2008, prendeu o ex-gari Michael Davi Ezequiel dos Santos, na época com 21 anos. Ele foi acusado pelo sequestro e assassinato da adolescente, que também teria sido estuprada.

“Naquela época, foram encontrados vestígios de solo diferentes na roupa e no corpo da vítima. Se o caso fosse atual, poderíamos ter ajudado a elucidá-lo”, diz Rodrigo Corrêa.

Em agosto de 2009, Michael Davi foi julgado e condenado a 25 anos e 8 meses de prisão em regime fechado, por sequestro, morte e ocultação de cadáver. Como não houve prova que confirmasse o estupro, ele foi absolvido dessa acusação.

Isabela Tainara: crime chocou a população do DF em 2007

Ficção e realidade
Não é apenas com a lama na sola dos sapatos que os criminosos do Distrito Federal devem se preocupar. Outros métodos inovadores têm sido usados pela Polícia Civil do DF, nos moldes de CSI, série de investigação criminal cujos personagens desvendam assassinatos até então insolúveis.

Um dos exemplos foi a execução do empresário Gerson Macedo, 65 anos. O homem desapareceu em janeiro de 2017, após sair para encontrar seus algozes, e não voltou mais para casa, no Riacho Fundo. Durante seis meses, a família ficou sem respostas. Até que um corpo foi encontrado em uma cisterna de Luziânia (GO).

O cadáver foi trazido para Brasília. É aí que entrou o trabalho da equipe do Instituto de Pesquisa e DNA Forense, comandada pelo médico Samuel Teixeira Gomes Ferreira. Como o corpo estava a 20 metros de profundidade e em um ambiente úmido, parte dele foi preservada, e isso possibilitou o confronto da cartilagem da vítima com o material genético do filho e da esposa de Gerson.

Cerca de 30 horas depois, o exame de cartilagem confirmou a identidade do empresário.

Se houvesse somente o esqueleto, o exame demoraria, no mínimo, 30 dias. O Distrito Federal é pioneiro na técnica de extração de DNA a partir de cartilagem. O método começou a ser desenvolvido em 2006. Desde então, foi usado para a identificação de 45 corpos.

Perito da Polícia Civil em ação: tecnologia a serviço da segurança pública