Segundo Adalberto Scigliano, superintendente do Arquivo Público do DF, a população também pode colaborar com material para o acervo. “Basta nos procurar e nós faremos uma avaliação quanto à relevância disso para a história”, explica| Paulo H. Carvalho/ Agência Brasília

Um lugar de memórias sobre a história de Brasília. Assim é o Arquivo Público do Distrito Federal, órgão ligado à Casa Civil do Distrito Federal que, no mês passado, completou 36 anos de existência. O presente, porém, será para a população: a digitalização de todo o acervo deve ficar pronta até o final deste ano. Além disso, para celebrar o aniversário de Brasília, uma exposição virtual está sendo planejada para 21 de abril.

Atualmente, 44 fundos arquivísticos provenientes de 21 órgãos públicos e 23 pessoas físicas ou entidades fazem parte do acervo. “O fundo é a coletânea de documentos de qualquer natureza, podendo ser textual, imagem, vídeo, película, reunidos por uma instituição e que já ultrapassaram sua tabela de temporalidade”, explica o superintendente do Arquivo Público do DF, Adalberto Scigliano, em entrevista à Agência Brasília.

O material inclui 48.192 cartográficos, 6,7 mil eletrônicos, 5,6 mil filmográficos, mais de 1,5 milhão de iconográficos, 2.233 micrográficos, 5,3 mil materiais sonoros, 1.022,22 metros lineares de textual e 132 itens tridimensionais.

Dentro de todo este conteúdo, há fundos da Secretaria de Comunicação desde 1987. Entre eles, 720.922 fotografias digitais, 8.660 fotografias reveladas e 1.363 fitas cassetes que ajudam a contar a história de Brasília.

Confira trechos da entrevista:

Como está o processo de digitalização do acervo?

Da parte textual, estamos com 66% digitalizado. O ponto crítico são as mídias especiais, que necessitam de digitalização específica. Por isso, firmamos uma parceria com a Subsecretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação (Sutic), vinculada à Secretaria de Economia.

Por exemplo, nós temos 559 filmes que estão armazenados de forma segura e precisam de equipamento específico de modo que, ao serem digitalizados, não sejam corrompidos nem danificados. Mas a expectativa é de que até o final do ano tenhamos todo esse material digitalizado e disponível para a população.

Os arquivos também estão sendo indexados para que possamos adotar um sistema de busca de mais fácil utilização pela população.

Qual a importância dessa digitalização?

Nós achamos o baú do tesouro, ainda não sabemos o que tem ali e estamos super ansiosos para descobrir. Quando você tem oito milhões de itens que podem estar à disposição da população, mas não estão, você precisa compartilhar esse material.

Além disso, com a digitalização, você perpetua o material e garante a segurança, já que ele será criptografado e ficará guardado em quatro locais: no Arquivo Público, no nosso backup, na Sutic e na nuvem da Sutic. Ou seja, não corremos o risco de perder por alguma invasão à rede ou por algo como, por exemplo, um incêndio.

A população pode colaborar com material para o Arquivo Público?

Pode sim. O material precisa ter o contexto da história de Brasília. Basta nos procurar e nós faremos uma avaliação quanto à relevância disso para a história. Aliás, um dos pilares do Arquivo Público é o recolhimento e preservação desses matérias, porque a gente acredita que ainda existam alguns fragmentos de história que foram perdidos, porque a história é muito recente, a construção foi muito rápida, vieram pessoas de vários lugares para isso.

E o local está aberto para visitas?

Continuamos funcionando de segunda a sexta-feira, de 9h às 17h, porém mediante agendamento prévio. É preciso cuidado ao manusear o acervo e, inclusive, usar equipamentos de proteção. Atualmente, a maior parte do nosso público é de acadêmicos, jornalistas, historiadores e arquitetos.

Nossa intenção é ampliar isso, despertando o interesse da população como um todo para tudo o que tem aqui. Eu já morei em nove estados brasileiros e acho peculiar o orgulho que o brasiliense tem da sua história. É mais do que a cidade, estamos falando da capital do Brasil que é patrimônio da humanidade. Precisamos que essa população conheça Brasília e sua história.

“Nós achamos o baú do tesouro, ainda não sabemos o que tem ali e estamos super ansiosos para descobrir. Quando você tem oito milhões de itens que podem estar à disposição da população, mas não estão, você precisa compartilhar esse material”

O que a população pode encontrar no Arquivo Público?

Além de textos e fotos, temos alguns itens tridimensionais, como uma mesa que era usada pelo fundador do Hospital de Base, Ernesto Silva. Temos a história oral, que são recortes, como por exemplo na Saúde, onde temos relatos contados pelos primeiros médicos que chegaram a Brasília. Alguns materiais, porém, só poderão ser acessados quando concluirmos a reforma de um novo espaço que estamos criando aqui, que virá após a digitalização total do acervo.

Então, o Arquivo Público ganhará novo espaço?

Com a digitalização, ganharemos mais espaço físico. Com essa reforma, acreditamos que seremos o primeiro arquivo público do país totalmente inclusivo. Teremos condições de atender o visitante mesmo que ele tenha as cinco principais deficiências: visual, auditiva, mental, motora e múltipla. Já temos a parte de acessibilidade concluída e agora buscamos, juntamente com a Sutic, levantar os equipamentos necessários para transformar nosso acervo acessível a todos, como conteúdo em braile e libras. Nossa intenção é transformar o arquivo público em um centro histórico e cultural com interação.

Infelizmente, precisamos parar a reforma e entendemos que neste momento de pandemia há outras prioridades. Mas, desde que começamos este projeto aqui, recebemos apoio tanto do Executivo quanto do Legislativo, inclusive com emenda parlamentar.

Que projetos vocês ainda planejam para este ano?

Além da digitalização, estamos preparando uma exposição virtual, multimídia, com cinco temas inerentes à história de Brasília para ser apresentada no dia 21 de abril. Teremos a história tradicional, fatos inéditos, vídeos e quiz. Será nosso presente para o aniversário de Brasília.

Também demos início à preparação para a comemoração dos 100 anos da pedra fundamental, que será ano que vem. Estamos solicitando ao Museu do Ipiranga, em São Paulo, os arquivos que estão por lá para que possamos entregar este conteúdo à população em 2022.

Além de coordenar e orientar atividades de gestão documental, o Arquivo Público também é responsável pela implantação da política distrital de arquivos. Como está essa questão?

Estamos revisando toda a política distrital de arquivo, porque os últimas decretos e instruções normativas datam de 2000 e 2003. Tem leis que estão completamente defasadas em relação à realidade digital. Por exemplo, na época não tinha o Sistema Eletrônico de Informações (SEI).

Temos um grupo interno trabalhando no assunto hoje, em como armazenar documentos eletrônicos. Mais do que isso, o que fazer com as redes sociais, porque o que antes era uma fotografia impressa, revelada, hoje é um post na rede social. Como guardar isso? É o que estamos buscando fazer.

Fonte: Agência Brasília